QUANDO A NARRATIVA TENTA SUBSTITUIR A REALIDADE
Na democracia contemporânea, governos administram fatos; adversários disputam interpretações. Ao eleitor permanece a tarefa de distinguir uma coisa da outra. Governar nunca foi apenas administrar. Sempre foi, também, disputar o significado daquilo que se administra. Obras são entregues, contas públicas reorganizadas, políticas implementadas e serviços aperfeiçoados. Mas nenhum fato chega à sociedade sem antes atravessar o campo das interpretações. Entre a ação do governo e a percepção do cidadão existe uma arena permanente de disputa: a narrativa. Não se trata de um fenômeno novo. O que mudou foi sua velocidade, sua sofisticação e sua escala. A revolução digital transformou rumores em ecossistemas de desinformação. Conteúdos sintéticos produzidos por inteligência artificial, montagens audiovisuais, campanhas coordenadas de desinformação e a lógica da pós-verdade passaram a disputar com os fatos o espaço da credibilidade. A informação passou a competir com simulacros cuidadosamente cons...