A CRISE DA REALIDADE COMPARTILHADA


Quando os fatos deixam de unir a sociedade, a democracia passa a disputar não apenas ideias, mas a própria realidade.



O editorial do Estadão desta quinta-feira (02/07), ao tratar da perda de confiança no Congresso Nacional, suscita uma reflexão que talvez seja ainda mais ampla. A credibilidade não está em declínio apenas nas instituições políticas. O desgaste alcança também aqueles encarregados de medir, interpretar e explicar a realidade.
Do escriba de um veículo qualquer de imprensa, passando pela voz em microfones radiofônicos até a imagem que espelha a tela, todos estão em evidência.
As pesquisas de opinião ilustram bem essa transformação. Continuam sendo instrumentos científicos essenciais para compreender tendências sociais e orientar decisões de governos, empresas, partidos e organizações. Seus métodos evoluem, são permanentemente auditados e permanecem indispensáveis à formulação de estratégias públicas e privadas.
Durante décadas, o percurso da informação seguia uma lógica relativamente estável. Institutos produziam dados, a imprensa lhes conferia contexto, a sociedade formava sua opinião e o sistema político reagia. Havia divergências, mas também um conjunto de mediadores cuja autoridade era amplamente reconhecida.
Hoje, a disputa já não é apenas pelos fatos. É pelo direito de interpretá-los.
No caso de São Sebastião, por exemplo, partidos querem emprestada a boa imagem do governante da cidade, Reinaldinho Moreira, porque pesquisas feitas para consumo de suas estratégias eleitorais dizem ser um nome "confiável" e "bem aceito".

Destoa, portanto, quando adversários tentam desqualificá-lo - usando indicadores inexistentes de "pesquisas" que não são identificadas por nenhuma frente.
Hoje, institutos, imprensa, especialistas, influenciadores e plataformas digitais disputam, simultaneamente, a autoridade para atribuir significado aos mesmos fatos. O dado permanece objetivo. A interpretação tornou-se um campo de batalha.
Poucas horas após sua divulgação, uma pesquisa costuma deixar de ser analisada por seus resultados. O debate desloca-se para quem a contratou, quem a publicou, quem a interpreta e quem seria beneficiado por ela. O foco deixa de ser a evidência e passa a ser a disputa por sua legitimidade.
Essa dinâmica ajuda a compreender por que a desconfiança passou a atingir não apenas o Congresso, os partidos e os governos, mas também os próprios instrumentos destinados a aferir a opinião pública e aqueles encarregados de divulgá-la.
Institutos são contestados, veículos de comunicação têm sua imparcialidade questionada, especialistas disputam espaço com influenciadores e algoritmos passaram a decidir, silenciosamente, quais versões da realidade alcançarão maior audiência.
No plano local, essa crise não diminui de intensidade; apenas muda de forma.
Se, nacionalmente, ela se manifesta no embate entre grandes instituições, nos municípios ela assume contornos pessoais, envolvendo reputações, relações políticas e redes locais de influência. A confiança torna-se ainda mais sensível.
Mais grave do que contestar pesquisas científicas é banalizar o próprio conceito de pesquisa, atribuindo aparência técnica a informações sem origem conhecida, metodologia verificável ou responsabilidade pública.
Quando a linguagem da ciência é apropriada para fins exclusivamente políticos, quem perde não é apenas a pesquisa. É a confiança na própria ciência.
Nenhuma democracia depende do monopólio da informação. O pluralismo é um valor essencial. Mas pluralismo não significa que toda afirmação possua o mesmo peso ou que evidências possam ser substituídas por conveniências narrativas. Liberdade de expressão e responsabilidade intelectual caminham juntas.
É justamente aqui que reside o maior desafio contemporâneo.
Talvez este seja o verdadeiro diagnóstico do nosso tempo: não vivemos apenas uma crise das instituições. Vivemos uma crise dos mediadores da realidade.
Confiança não se recupera por decreto, campanhas publicitárias ou discursos indignados. Reconstrói-se com rigor metodológico, transparência, independência, coerência e permanente prestação de contas.
No século passado, a grande questão das democracias era definir quem governava. No século XXI, a pergunta tornou-se mais elementar: quem ainda possui legitimidade para arbitrar a realidade?
Toda democracia necessita de divergências. Nenhuma, porém, sobrevive sem uma realidade minimamente compartilhada.
Quando até os fatos passam a depender da comunidade que os interpreta, a confiança deixa de ser um patrimônio das instituições e transforma-se em atributo das tribos. Nesse instante, o debate público perde seu ponto de encontro.
E quando uma sociedade deixa de compartilhar a própria realidade, a democracia deixa de disputar projetos de futuro e passa a disputar a existência dos próprios fatos.





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