QUANDO A NARRATIVA TENTA SUBSTITUIR A REALIDADE
Na democracia contemporânea, governos administram fatos; adversários disputam interpretações. Ao eleitor permanece a tarefa de distinguir uma coisa da outra.
Governar nunca foi apenas administrar. Sempre foi, também, disputar o significado daquilo que se administra.
Obras são entregues, contas públicas reorganizadas, políticas implementadas e serviços aperfeiçoados. Mas nenhum fato chega à sociedade sem antes atravessar o campo das interpretações.
Entre a ação do governo e a percepção do cidadão existe uma arena permanente de disputa: a narrativa. Não se trata de um fenômeno novo. O que mudou foi sua velocidade, sua sofisticação e sua escala.
A revolução digital transformou rumores em ecossistemas de desinformação. Conteúdos sintéticos produzidos por inteligência artificial, montagens audiovisuais, campanhas coordenadas de desinformação e a lógica da pós-verdade passaram a disputar com os fatos o espaço da credibilidade.
A informação passou a competir com simulacros cuidadosamente construídos para parecer verdade.
Esse ambiente alterou profundamente a dinâmica da política.
Governos continuam produzindo políticas públicas; adversários continuam exercendo o legítimo papel de criticá-las. O problema surge quando o debate deixa de confrontar decisões para disputar a própria existência dos fatos. A crítica fortalece a democracia; a substituição deliberada da realidade por versões a enfraquece.
A desinformação, entretanto, carrega uma contradição frequentemente negligenciada. Ela pode produzir desgaste momentâneo, mas também cobra um preço de quem a transforma em método.
Credibilidade é um patrimônio cumulativo. Lideranças, instituições, meios de comunicação e grupos políticos que reiteradamente trocam fatos por versões acabam comprometendo o ativo mais valioso da vida pública: a confiança.
Há outro aspecto que merece atenção.
Narrativas não prosperam apenas porque são bem difundidas; prosperam porque encontram predisposições humanas. Pessoas tendem a acolher informações compatíveis com suas crenças e a rejeitar aquelas que as desafiam. A disputa política contemporânea ocorre menos sobre os fatos em si e mais sobre os filtros pelos quais esses fatos são percebidos.
Nesse cenário, a assimetria comunicacional adquire enorme relevância. Nem todos os atores dispõem dos mesmos instrumentos para influenciar a opinião pública. Alguns concentram veículos de comunicação, redes organizadas de difusão, plataformas digitais e estruturas capazes de multiplicar versões com velocidade incomparável.
Essa diferença de alcance amplia o poder de influência, mas também impõe responsabilidade. Em uma democracia, quanto maior o poder de comunicar, maior deve ser o compromisso com a integridade da informação e com o interesse público.
Ainda assim, existe um limite para o alcance das narrativas.
A Ciência Política demonstra, há décadas, que o eleitor não decide exclusivamente a partir dos discursos que escuta, mas também da realidade que experimenta. A teoria do voto retrospectivo mostra que cidadãos tendem a comparar promessas com entregas, expectativas com resultados e palavras com experiências concretas.
A propaganda pode moldar percepções; dificilmente consegue substituir, por muito tempo, a vivência cotidiana.
Quem utiliza um serviço público, acompanha a transformação da cidade, percebe maior capacidade de diálogo institucional ou observa mudanças na administração forma convicções que transcendem campanhas de comunicação. A experiência vivida continua sendo uma das fontes mais resistentes de formação da opinião política.
É dessa experiência que nasce a legitimidade pelo desempenho.
A autoridade de um governo não decorre apenas da vitória eleitoral nem da habilidade de comunicar. Ela se consolida quando a sociedade reconhece competência administrativa, responsabilidade na gestão dos recursos públicos e capacidade de responder às demandas coletivas.
O cargo confere poder; a confiança confere legitimidade.
Há, ainda, uma característica própria da democracia brasileira que costuma ser negligenciada. Embora o sistema jurídico atribua ao partido papel central na organização da representação política, o voto permanece profundamente personalizado. O cidadão vota, antes de tudo, em pessoas. Confia em trajetórias, observa comportamentos e atribui responsabilidade a lideranças concretas.
O capital político, portanto, não se transfere por decreto nem se desfaz apenas por campanhas narrativas. Ele é construído na relação contínua entre liderança e sociedade.
Também por isso, pesquisas de opinião exigem prudência. Quando realizadas com rigor metodológico, não produzem legitimidade nem criam consensos; apenas registram percepções existentes em determinado momento. São instrumentos de observação da realidade, não substitutos dela.
Ao final, permanece uma constatação que talvez explique a resiliência das democracias.
Narrativas influenciam, tecnologias aceleram versões, algoritmos ampliam emoções e estratégias de comunicação moldam percepções. Mas nenhuma delas consegue monopolizar indefinidamente o julgamento social.
Existe um tribunal que permanece em funcionamento todos os dias, silencioso e inalcançável por qualquer campanha de comunicação. É o tribunal da experiência.
É nele que o cidadão confronta aquilo que ouviu com aquilo que viveu; compara promessas com resultados; distingue convicções fabricadas de confiança conquistada.
A política continuará sendo uma disputa de interpretações. Sempre foi. Mas democracias maduras preservam um princípio que nenhuma tecnologia deveria ser capaz de revogar: versões podem disputar a realidade; jamais deveriam substituí-la.
Porque o poder pode ser conquistado em uma eleição. A legitimidade, porém, precisa ser confirmada todos os dias - não pelo volume das narrativas, mas pelo peso dos fatos.
Comentários
Postar um comentário