ALÉM DA PAISAGEM
Três cidades no Top 10 ambiental do Brasil e quatro Estâncias Turísticas revelam a emergência de um novo território estratégico no Litoral Norte
Durante muito tempo, o Litoral Norte de São Paulo foi interpretado sobretudo pela paisagem. Praias, Mata Atlântica, Serra do Mar, rios e ilhas consolidaram a região como um dos principais destinos turísticos do Estado.
Esse retrato continua verdadeiro. Mas já não é suficiente.
O Ranking de Competitividade dos Municípios 2026, do Centro de Liderança Pública, ajuda a revelar essa mudança. No pilar Meio Ambiente, Ubatuba ocupa a 2ª posição nacional, São Sebastião a 3ª e Caraguatatuba a 8ª.
O levantamento compara 423 municípios brasileiros com mais de 80 mil habitantes, responsáveis por 60,5% da população do país. Entre as quatro cidades do Litoral Norte, exatamente as três que entram nesse recorte estão entre as oito primeiras do Brasil. Os Prefeitos Reinaldinho Moreira, (São Sebastião) e Mateus Veneziani da Silva, (Caraguatatuba), comemoram o resultado.
Não parece razoável tratar isso como coincidência. Há um ativo regional por trás dos números.
Os quatro municípios somam cerca de 362 mil moradores permanentes, mas convivem com fluxos turísticos muito superiores à população residente. Essa sazonalidade pressiona saneamento, mobilidade, saúde, drenagem, resíduos e serviços públicos.
Preservar, portanto, não é apenas proteger paisagem. É sustentar a infraestrutura ambiental de uma região submetida a forte pressão urbana e turística.
Há outro dado que amplia essa leitura: Caraguatatuba, São Sebastião, Ubatuba e Ilhabela são Estâncias Turísticas do Estado de São Paulo. Isso ajuda a compreender por que, no Litoral Norte, natureza e economia não ocupam lados opostos.
A natureza não é cenário da economia. É parte dela. É ela que sustenta hotelaria, gastronomia, turismo náutico, comércio, serviços e parte importante da valorização territorial.
Ao mesmo tempo, outra transformação começa a redesenhar a região.
O novo acesso entre o Contorno Sul da Tamoios e o Porto de São Sebastião entrou em operação em julho, criando uma ligação direta entre o terminal e a malha rodoviária e retirando grande parte do tráfego pesado da área urbana central.
Caraguatatuba, por sua vez, tem um novo aeródromo em projeto, concebido para integrar-se à Tamoios, ao Porto de São Sebastião e às operações offshore da Bacia de Santos. O próprio Ministério de Portos e Aeroportos trata essa estrutura como parte de um novo corredor multimodal regional.
São Sebastião concentra Porto e TEBAR.
Caraguatatuba abriga a UTGCA e dispõe de território para serviços e apoio logístico.
Ubatuba já possui aeroporto.
Ilhabela mantém forte inserção na economia náutica e marítima.
Não são vocações concorrentes. Podem ser complementares.
E talvez seja justamente aí que esteja a maior oportunidade regional: organizar essas diferenças para que uma cidade amplie a força da outra. Mas há uma condição. O mesmo território que concentra turismo, energia, porto, logística e valorização imobiliária está exposto a eventos climáticos extremos.
A tragédia de fevereiro de 2023, em São Sebastião, tornou essa vulnerabilidade impossível de ignorar. Desde então, prevenção, drenagem, monitoramento, contenção de encostas e planejamento territorial deixaram de ser temas acessórios.
Adaptação climática virou infraestrutura. É por isso que o bom desempenho ambiental do Litoral Norte não deve ser tratado como certificado de missão cumprida. É o contrário. Quanto mais valioso o território, maior a responsabilidade sobre a forma como ele cresce. O Litoral Norte já não precisa discutir se haverá expansão econômica. Ela já está em curso.
A questão agora é outra: como fazer turismo, porto, energia, logística, mercado imobiliário e preservação avançarem sem que uma vocação destrua a outra? Essa talvez seja a pergunta central da próxima década.
Estamos diante de uma região com cerca de 362 mil moradores permanentes, forte população sazonal, quatro Estâncias Turísticas, três municípios entre os oito primeiros do país em Meio Ambiente e uma infraestrutura logística e energética que começa a conectá-la a cadeias econômicas maiores.
Poucos territórios reúnem tantos ativos em tão pequena extensão. O desafio agora é transformar essa concentração em estratégia regional. Isso exige planejamento para além das divisas municipais, integração em saneamento, mobilidade, qualificação profissional, defesa civil e desenvolvimento econômico.
O Litoral Norte já funciona como uma região. Suas políticas públicas precisam aprender a fazer o mesmo. O ranking do CLP apenas tornou mais visível uma vantagem que sempre esteve diante dos olhos.
O futuro econômico da região não acontecerá apesar da paisagem. Dependerá da capacidade de crescer sem destruí-la. É aí que o Litoral Norte deixa de ser apenas destino. E passa a se afirmar como território estratégico.
Adelson Pimenta, jornalista
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