NÃO ERA SÓ MAIS UM SILVA

Sob garrote fiscal e uma Câmara indócil, Mateus atravessa derrotas sem perder centralidade no campo político de Caraguatatuba


Caraguatatuba passou boa parte de 2026 sob pressão.

O Governo de Mateus Veneziani da Silva sustentou ter recebido uma administração financeiramente desequilibrada, viu a queda da atividade da UTGCA reduzir receitas de royalties em dezenas de milhões de reais, teve cerca de R$ 9 milhões do Fundo Municipal de Saúde atingidos por bloqueio judicial em razão de emendas parlamentares sob a gestão passada e sofreu uma derrota política relevante quando a Câmara Municipal de Caraguatatuba, presidida por seu irmão, Antonio Carlos Junior, derrubou, por unanimidade, o veto do Prefeito à revogação da taxa do lixo.

O ambiente era adverso o bastante para produzir uma pergunta inevitável: os problemas de Governo estavam se transformando também em perda de liderança política?

A eleição de 2026 ofereceu uma resposta mais complexa.

Mateus havia chegado à Prefeitura de Caraguatatuba dois anos antes com 26.850 votos, 37,26% dos válidos. Não estava na cédula agora, mas o campo político do qual passou a ser a principal referência institucional voltou a ser submetido ao voto.

E o primeiro dado relevante veio justamente de Antonio Carlos da Silva.

O ex-prefeito e ex-deputado estadual terminou 2026 com 23.504 votos no Estado, abaixo dos 32.092 obtidos em 2022. Vista apenas pelo total paulista, a curva é de retração. Mas a geografia do voto altera a interpretação.

Em Caraguatatuba, Antonio Carlos recebeu 16.446 votos neste ano, 2026. Quatro anos antes, haviam sido 16.937. A diferença é de apenas 491 votos, cerca de 2,9%. O que efetivamente encolheu foi sua capacidade de buscar votos fora da cidade. Isso importa porque sua candidatura nasceu em condições pouco convencionais.

Em julho, quando a pré-candidatura já movimentava os bastidores, levantamento da imprensa regional indicava que até sete dos dez vereadores considerados integrantes da base de Mateus já poderiam estar comprometidos com outros candidatos a deputado estadual. Antonio Carlos entrou, portanto, numa disputa em que parte da estrutura política tradicional já estava ocupada.

A pergunta então muda. Não é apenas por que Antonio Carlos caiu de 32 mil para 23,5 mil votos no Estado. Não, é outra. É como conseguiu preservar praticamente intacta sua votação dentro de Caraguatatuba num cenário de campanha tardia, apoios pulverizados e Governo submetido a desgaste institucional.

É nesse ponto que Mateus entra no centro da análise.

Seria exagerado atribuir os 16,4 mil votos do pai ao Prefeito. Antonio Carlos possui capital eleitoral próprio, acumulado em décadas de vida pública. Mas também seria artificial separar completamente esse patrimônio da posição ocupada hoje pelo filho. Mateus controla o Executivo, assumiu publicamente o apoio à candidatura e se tornou o vértice institucional de um grupo cuja base local mostrou capacidade de resistência.

O dado não prova transferência individual de votos; demonstra permanência de uma estrutura política da qual o Prefeito é hoje peça central. Essa distinção é importante porque 2026 também produziu um adversário mais visível.

Danster Fernandes, eleito vereador em 2024 com 1.632 votos, alcançou 7.178 em Caraguatatuba na disputa para deputado federal, dentro de um total estadual de 8.813. Multiplicou por mais de quatro a votação nominal que o levou à Câmara e confirmou a existência de um capital político emergente na oposição.

É um crescimento relevante. Mas ainda em outra escala.

Mesmo concorrendo a cargos distintos - e, portanto, sem constituírem confronto eleitoral direto - Antonio Carlos obteve no município aproximadamente 2,3 vezes a votação de Danster. O dado não diminui a ascensão do vereador. Apenas mostra que a oposição conseguiu ampliar sua voz eleitoral sem, até aqui, desmontar a base histórica do grupo situado no Executivo.

Esse talvez seja o ponto mais interessante de Caraguatatuba hoje.

A Câmara mostrou que Mateus não controla politicamente todos os movimentos do Legislativo. A rejeição unânime ao veto da taxa do lixo foi demonstração inequívoca de autonomia parlamentar. Mas liderança política não se resume à contagem de votos no plenário. Também envolve posição institucional, capacidade de sustentar uma coalizão, preservar base social, dialogar com níveis superiores de Governo e impedir que crises administrativas produzam automaticamente esvaziamento político.

Nesse plano, Mateus terminou 2026 menos fragilizado do que a sucessão de derrotas institucionais poderia sugerir. Ele também procurou assumir diretamente a condução das crises mais sensíveis. Foi à ANP discutir a queda da produção da UTGCA e os impactos sobre os royalties; posteriormente anunciou reorganização administrativa e contingenciamento interno para enfrentar a redução de receitas. Na Saúde, o município obteve decisão do STF permitindo uma nova conta para os repasses correntes do SUS de 2026, depois do bloqueio que atingiu o Fundo Municipal.

Esses episódios não resolvem os problemas de Governo. Mas ajudam a separar dificuldade administrativa de perda de comando político.

Há ainda a votação da chapa estadual. Tarcísio Gomes de Freitas, Guilherme Derrite e André do Prado tiveram desempenho elevado em Caraguatatuba, numa eleição em que diferentes grupos locais procuraram se associar aos mesmos nomes. Esse resultado não pertence exclusivamente a Mateus - outros atores também reivindicam participação nessa construção -, mas situa o Prefeito dentro de uma rede política estadual mais ampla, não à margem dela.

É por isso que a fotografia de 2026 não cabe numa leitura simples.

Antonio Carlos perdeu alcance fora de Caraguatatuba, mas praticamente manteve sua base dentro dela. Danster cresceu de forma expressiva, mas ainda não alcançou a mesma escala eleitoral local. A Câmara impôs derrotas ao Executivo, mas não há evidência de que essas derrotas tenham provocado deslocamento equivalente no eleitorado. E Mateus, mesmo sob garrote fiscal, continuou no ponto de encontro entre Prefeitura, estrutura política familiar e articulações estaduais.

Essa é a mudança relevante.

Quando venceu em 2024, ainda havia espaço para enxergá-lo principalmente como herdeiro de um sobrenome político conhecido. No meio do mandato, essa explicação já começa a ser insuficiente.

Antonio Carlos continua sendo o lastro histórico. Mas quem hoje administra o conflito, ocupa o Executivo, responde pelas crises e organiza a posição institucional do grupo é Mateus.
Talvez seja exatamente por isso que 2026 tenha oferecido o primeiro teste mais claro de sua liderança própria. O Governo perdeu votações; teve frustração de receitas e enfrentou bloqueios, mas o seu campo político não desapareceu.

O tabuleiro ficou mais hostil. Mateus, porém, continuou no centro dele.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DISCURSO DE INDEPENDÊNCIA

NÃO CONTE À NINGUÉM

CARAGUÁ SOB EMERGÊNCIAS